Histórias de crenças e perseverança

Apaixonada por história, Katya – a minha anfitriã em Moscovo – e o seu companheiro, Kirill, desafiaram-me para ir até Vladimir, uma pequena cidade a 2h de Moscovo.

Apesar do seu tamanho modesto, esta cidade milenar, tem um grande peso na história ortodoxa da Rússia: várias igrejas, catedrais e mosteiros, um complexo reconhecido como Património Mundial UNESCO.

Uma dessas igrejas pratica ainda o chamado “velho ortodoxo”, uma expressão religiosa que foi banida e severamente punida durante a Revolução de Moscovo, entre os anos 1652 a 1666. Os seus praticantes eram perseguidos e mortos, simplesmente por não se quererem render às “novas” regras religiosas. Fomos a esta pequenina igreja em Vladimir, toda em madeira, actualmente em reconstrução, que é um dos pouquíssimos exemplos onde ainda se pratica um “velho ortodoxo” puro, e que sobreviveu (parcialmente) às perseguições da época. Esta igreja é provavelmente a única sobrevivente dessa época, com as mesmas regras que mantinha no passado. Hoje conta com mais participantes, visto o “velho ortodoxo” já não ser um crime, e recebem-nos na igreja de braços abertos, com acompanhamento e explicação exclusivos.

À entrada deram-nos – a mim e à Katya – umas saias compridas e uns lenços para cobrirmos a cabeça. Faz parte das regras da religião para entrar nas igrejas. A Violetta foi quem nos recebeu e contou algumas das histórias, da religião, da igreja e dos seus artefactos. Vestida de forma modesta, com uma saia verde pesado em evasé, uma blusa branca, de mangas compridas e soltas, e o cabelo muito bem apanhado num carrapito atrás. Dois brincos de pérola e uma pele macia e sedosa, de fazer invejar qualquer anúncio de cremes de beleza. Fala baixo, mas seguido, com as palmas das mãos juntas na zona da barriga.

Das muitas coisas que a Violetta nos mostrou e contou, o que mais me fascinou foi a do znamenny – o cântico tradicional nas igrejas ortodoxas, onde se usam apenas vozes humanas e nunca instrumentos musicais. O canto é monotónico, e praticado durante anos a fio, pois acredita-se que algumas das notas são sagradas e nos permitem um acesso mais próximo de Deus. Aqui nesta igreja, ainda se usam os quadros com as antigas notas musicais, e a Violetta mostra-se entusiasmada por nos mostrar isso.

Como é proibido fotografar dentro da igreja, pedi-lhe se era possível fotografá-la lá fora, e com os quadros com as notas, pois nunca os tinha visto nem sei se voltarei a ver.  Fiquei deliciada quando a Violetta não só aceitou o meu pedido, como ainda fez questão de mudar de roupa para as vestes tradicionais de quando cantam os cânticos na igreja.

Como se costuma dizer – made my day

Para irem até Vladimir podem apanhar o comboio expresso (2h) ou o suburbano (menos de 4h) na estação de Kurskaya. Eu fui de expresso, e o bilhete custou apenas 630RUB (cerca de 8,23€).

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